Jardim
"...Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: "São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam..."
É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu.
Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constroem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas...
O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante... E como é bom!
Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro..."
Rubem Alves

Graças a Deus sou do tempo em que a maioria das residências tinham um jardim!
Ninguém buscava os conselhos de paisagistas, aliás, nem me lembro de ouvir esse nome, mas sei que as mulheres trocavam dicas entre si, por exemplo, como cuidar bem de suas plantinhas.
Plantinhas que cresciam maravilhosamente no meio de uma considerável quantidade de espécies que iam desde rosas, margaridas, dálias, cravos, girassol e até outras que, agora, os nomes fugiram de minha memória.
Era atudo lindo e simples ao mesmo tempo!
Algumas espécies por conta do tamanho do caule necessitavam de apoio, logo, um cabo de vassoura resolvia o problema, quem sabe até um pedaço de bambu amarrado com uma tirinha de pano colorida.
A conversa das donas de casa com relação aos seus jardins era prazerosa também! Elas tinham orgulho de suas plantinhas e não mediam esforços para explicar como tratavam-nas diariamente.
A troca de mudinhas era algo comum."Fulana" não tinha determinada mudinha, então pedia à vizinha que repassava-a e vice-versa. No final das contas, os jardins da rua inteira tinham as mesmas espécies de flores e plantas.
Muro baixo, cada jardim atraía a atenção de quem passava na calçada, alguns paravam para admirar, elogiar e... pedir uma mudinha.
Eu como uma criança curiosa, sempre arriscava a pegar uma florzinha que escapava pelos vãos das grades.
A desculpa?
Levar para santinha.
Esses eram os jardins de minha infância dos quais nunca esqueci! Nem fotos consigo encontrar mais.
"O tempo é algo que não volta atrás portanto, plante seu jardim e decore sua alma ao invés de esperar que alguém lhe mande flores"
Willian Shakespeare